CAPÍTULO 04

O LEGADO SECULAR

 

O céu estava claro e límpido por toda a sua imensidão, porém mais uma vez cores disformes e randômicas começaram a surgir por toda a abobada celeste, demonstrando que algo estranho poderia estar acontecendo, e isso fez com que o instinto de curiosidade Pastor aflorasse para eventos futuros.

A vila parecia pacata e sem qualquer sinal de ataque de grupo de Pokémons descontrolados. Mas por via das dúvidas, ele preferiu fazer uma caminhada pelas ruas da Vila Serena, analisando cada um dos possíveis focos de algazarra que pudesse vir a ocorrer.

    Ele era um homem com mais de quatro décadas vividas, mas as linhas de expressão de seu rosto e o treinamento físico intenso que realizava periodicamente o davam uma fisionomia mais jovem. Seu filho era uma companhia constante nestas atividades, e até seus Pokémons, um Alakazam, com o qual Wilson Fauster treinava desde sua infância, e o Charmeleon do seu garoto, sempre os acompanhavam.

Esses esportes matinais traziam imensos benefícios físicos e mentais para todos, mas os humanos sabiam que este era o momento deles, o momento de pai e filho se tornarem mais íntimos, uma vez que os assuntos da vila sempre os afastava, uma vez que a função de “Pastor” realmente exauria e tornava as conversas singelas quase inexistentes.

– Senhor Pastor, eu gostaria de tirar uma dúvida com o senhor. – Um homem grande, com fortes braços, duramente trabalhos nas forjas da cidade, vinha em direção a Wilson, com um ar preocupado e incerteza no olhar, falando quando este deu seu aval.

– Não seria melhor utilizarmos os Pokémons treinados para proteger melhor nossa cidade desses ataques, do que manter os trabalhos de forma normal?

Tendo seu Alakazam meditando ao seu lado e lhe fazendo um carinho por trás de sua nuca, eriçando seus pelos e lançando um pouco de energia azulada por marcas que apareciam em seu corpo e se dirigiam para o chão, o Pastor sorriu para o preocupado homem.

– Não tem o que se preocupar Ralf, os Pokémons podem trabalhar sem problema, eu já estou resolvendo essa situação, o Conselho se reunirá hoje e tudo será resolvido.

Era verdade que os problemas pareciam estar aumentando, e com o aparecimento do estranho fenômeno novamente, os habitantes da Vila Serena não ficaram muito sossegados com o fato, o ataque não era um assunto citado, todos faziam questão de enuviar suas mentes para o acontecido, porém com esse distúrbio acontecendo novamente no céu, parecia que um botão havia sido pressionado e todos voltaram a ficar alerta e receosos com o que poderia ocorrer, transitando mais afobados por entre os casebres e mercados da vila.

Os Pokémons demonstravam um certo desconforto também e os humanos mais inseguros em relação as ações que podiam tomar com seus parceiros. O Conselho, grupo de pessoas influentes da vila, havia avaliado a urgência de uma atitude para proteger a todos e haviam convocado uma reunião para debelar esse problema que agia como uma doença altamente contagiosa, espalhando-se rapidamente.

Durante sua caminhada, pessoas chegavam no Pastor com perguntas sobre o modo que deveriam agir com as atitudes que seus Pokémons estavam tomando. Pedindo ajuda a seu companheiro, o Pastos tornou-se invisível durante o restante de sua caminhada somente retornando a visão de todos na Casa Grande, onde seria realizada a reunião do conselho, quando o dia já mostrava um belo banho de alaranjado pelo horizonte, um arrebol lindo de ser apreciado.

– Obrigado Alakazam, agora queria que você fosse até a minha casa e trouxesse a caixa que havia comentado contigo, aquela com o selo da planta, você pode fazer isso?

O Alakazam respondeu com um aceno positivo e teleportou imediatamente fora do campo de visão do Pastor. Ele então subiu as escadas e foi preparar seu material para a reunião que logo seguiria, na qual deveria tomar as decisões que, mal ele sabia, mudariam completamente toda a história de sua família e revelaria tudo que ele havia protegido até aquele instante.

****

Antes que os últimos raios de sol se extinguissem, os conselheiros começaram a chegar e a reunião logo começou, com portas fechadas e muitos sussurros de todos que auxiliavam o Pastor na Casa Central.

Rose Teodor, a secretária particular do Pastor, é a única que possui a autonomia para transitar entre a sala de reunião e os aposentos comuns da Casa Central, já que foi a ela que foi incumbida a tarefa de esperar o Alakazam retornar, um pedido feito pelo Pastor e que ainda não havia sido completado, um acontecimento raro, já que o Pokémon sempre cumpria com seu itinerário antes do previsto por todos. O nervosismo de Rose estava aumentando, uma vez que ela sabia que o momento de usar o objeto solicitado estava se aproximando.

As portas dos fundos da Casa Central abriram-se repentinamente, levando Rose a criar esperanças em seus olhos, mas ao ver quem havia chegado, ela se decepcionou, acenou e voltou seus olhos para a porta de entrada. Yann e seu Charmeleon se aproximaram dela, ele afônico e o Charmileon chando a atenção para o garoto suado.

– Não posso agora Charmeleon. – Falou tentando evitar que o Pokémon a tirasse do foco da porta. Mas ao escutar as respirações profundas de Yann, ela se virou e falou:

– Garoto, se acalme, por que você está tão apressado, o que está acontecendo, alguma coisa grave? – Ela perguntou se virando agora para o garoto, que agora tentava se desvencilhar dela e subir as escadas para chegar na sala de seu pai.

– Senhora Teodor (puff), não tenho tempo para conversa, ... (puff) meu pai, preciso falar ... (puff) urgente. Tenho que perguntar sobre ... (puff) sonho estranho ... (puff) venho tendo. – As palavras voavam rapidamente da boca de Yann e sua respiração o fazia perder por um momento o pique, que não deixavam forças para o ar entrar em seus pulmões e novas palavras serem lançadas.

– Yann, não podemos atrapalhar a reunião do conselho, você sabe que isso é impossível. – Percebendo que ele não iria desistir, ela logo fala:

– Olha, eu estou esperando o Alakazam de seu pai chegar para entregar a ele alguma coisa importante. Nesse momento eu vejo se ele pode te atender, tudo bem? Vá descansar na sala dele. – E sem esperar por uma resposta dele, ela o conduz até o andar superior, solicitando a um dos funcionários que lhe traga um pouco de água com açúcar para acalmar o garoto.

– Olhe, fique aqui, acalme-se um pouco e o Pastor já virá para recebê-lo. – E ele sinaliza positivamente com a cabeça, pegando o copo e bebendo um pouco d’água, respirando mais calmamente, sua dor de cabeça passando um pouco mais, deixando o restante da água para compartilhar com seu companheiro.

Rose era uma senhora de quarenta e poucos anos, muito eficiente e que já possuía uma certa intimidade com a família Fauster, uma boa quantidade de anos trabalhando em parceria e o filho dela era muito amigo do filho dos Fausters, isso fazia com que o laço se estreitasse mais.

Ela se dirigiu até a porta, mas antes de passar, se virou novamente para ele.

– Yann, gostaria de te pedir um favor. Depois que você falar com seu pai, por favor, vá até a minha casa e converse com o Markus, ele não está muito bem depois que acabou com a Ilana, gostaria que os amigos dele o dessem uma força, será que você poderia?

– Tudo bem Senhora Teodor, eu irei sim, assim que tiver a conversa com meu pai, passarei lá. – Com um pouco mais de fôlego Yann respondeu, levantando da cadeira e apreciando a vila pela janela de vidro da sala do Pastor, com olhos atentos para as imagens que eram formadas nos céus pelo evento que agora começava a se dissipar dando espaço à iluminada noite que começava a chegar à vila.

Alguns minutos se passaram e Yann começou a voltar a inquietação, Charmeleon o apoiava na angustia e os dois deram um salto quando um barulho ecoou do lado de fora da sala do Pastor, um grito vindo do andar inferior. Eles rapidamente correram para observar, e só conseguiram enxergar o Alakazam do pai de Yann correndo para a sala de reuniões com alguma coisa verde no colo, que deixava pingar um líquido amarelo por todo o carpete e Rose, a sua frente, abrindo espaço apressadamente na sala.

***

Finalmente a porta da sala de reuniões, ao lado do escritório do “Pastor”, abriu dando espaço para uma transtornada Rose passar carregando a pequena caixa de madeira esperada por todos. A caixa então foi deixada sob a mesa, após Rose colocar de lado vários mapas sobre montanhas, florestas e uma estranha cúpula de vidro que margeava toda a vila, mas instantaneamente todos perderam o interesse nela, uma vez que, logo atrás de Rose, Alakazam trazia um ser moribundo em seus braços. Yann e Charmeleon tentaram observar algo que estivesse acontecendo na sala, mas rapidamente a porta foi fechada.

Colocado em cima da mesa, ao lado da caixa, havia um Pokémon pequeno, azulado e com folhas volumosas brotando de sua cabeça. As folhas amareladas de um nauseante Oddish podiam ser vistas, com sucos escorrendo entre elas, deixando a sala com um leve tom de enxofre, azedo e acentuado. Seu corpo também parecia avariado, as raízes que funcionavam como pés estavam enegrecidas e com aparência frágil, como se a qualquer momento pudessem quebrar.

Com um aceno de cabeça o “Pastor” fez uma senhora com belos olhos negros se levantar e passar pela entrada deixando para trás somente o vento realizado pelos seus belos cabelos castanhos ondulados, retornando sua atenção para o Pokémon ferido e afastando a todos do seu entorno.

– Pessoal, esperem a Dra. Healling retornar para identificarmos o que é este problema – ele falou se virando para o seu companheiro Pokémon.

Todos fizeram o que o “Pastor” ordenou, dando passos para trás e aguardaram, vendo que ele encarava o seu companheiro como se os dois estivessem tendo uma conversa mental, graças a suas expressões faciais.

Enquanto os conselheiros aguardavam o retorno da Dra. ficaram criando várias teorias e imaginando o que poderia ter acontecido com a pobre criatura, que iniciava um pigarro dolorido.

A criatura entrou numa sequência de tosse que acabou a fazendo cuspir uma gosma esverdeada e seus olhinhos começaram a fechar, deixando sua respiração ainda mais ofegante, o que a levou a um desmaio.

Não tardou, a Dra. Healling retornou e ao seu lado uma bela Chansey a acompanhava, seguidas pela cabeça de Yann, que tentava entender o que acontecia do lado de fora da sala. Após passar pela porta, a Chansey a fecha, deixando mais uma vez o garoto e seu companheiro de fora dos acontecimentos.

Lá dentro, o Pokémon curandeiro rapidamente se debruça sobre o Oddish debilitado e inicia alguns movimentos que liberam uma chuva de faíscas sobre todo o corpo do moribundo, elevando suas folhas na cabeça e fazendo com que uma brisa com pequenos cristais brilhantes percorra toda a estrutura corporal dele. Um belo espetáculo para todos que observam e, quando os cristais tocavam nas faces dos conselheiros, também era um espetáculo relaxante, já que o cristal promovia o aquecimento na região como uma massagem.

Pokémon curandeiro e humana se entreolharam e a Dra. então solicitou que todos se retirassem da sala de reuniões, para que a Pokémon realizasse seu trabalho de forma mais eficaz. Todos então reuniram seus pertences e saíram assim com a doutora havia solicitado.

O “Pastor” tomou em suas mãos a caixa que estava ao lado do Oddish e retirou-se, acompanhado de perto por Alakazan, Rose e Peter Mewton, que o seguiram até seu escritório, enquanto os outros se dirigiam a outras salas. Yann e Charmeleon os seguiu até lá, os interrompendo durante uma conversa em sussurros.

– Filho, o que houve? – o “Pastor” seguiu até seu garoto e deu um beijo em sua cabeça, olhando para Rose sem entender a situação.

Tomando a frente Rose falou:

– Senhor “Pastor”, desculpe-me não ter avisado, é que com esses problemas, acabei esquecendo. Ele chegou afônico para ter uma conversa com o senhor, mas como estava em reunião, o fiz esperar até que o senhor o pudesse atender. – Ela corou um pouco pelo seu deslize momentâneo.

O “Pastor” colocou a caixa sobre sua mesa e voltou ao garoto, com uma expressão que Yann conhecia muito bem. O cansaço da profissão o deixava muito abatido, e sempre que ele expressava essas rugas em seu rosto, a verdadeira idade do “Pastor” se revelava a todos, deixando de lado sua jovialidade tão bem conservada.

Yann sabia que as dúvidas e incapacidades de resolver situações o consumiam tanto quanto alguma injustiça praticada por ele ou por outros ao seu lado. Nesse ponto, pai e filho eram muitos semelhantes, não havia dúvida. Além da cor dos cabelos e o nariz bem desenhado.

– Filho, sei que o assunto que você tem para falar deve ser sério, mas os acontecimentos aqui estão pedindo maior foco meu, então queria pedir para você ir para casa, lá conversamos, pode ser? Diga a sua mãe que chegarei um pouco tarde, fale que...

Porém, antes que o Pastor pudesse concluir sua fala, Yann o interrompeu, de forma truculenta e feroz, seu rosto ficando vermelho e suas palavras simplesmente jorraram, como também as lágrimas de seus olhos.

– Pai, o senhor tem que me ajudar, meu coração está doendo, eu não sei mais o que fazer, minha cabeça só fica ecoando “Ajude-me, ajude-me” e ele disse que eu deveria procurar você. Não me mande embora, eu não conseguiria aguentar mais.

Atônito, o “Pastor” e seus companheiros observavam a explosão do garoto, fato tão raro quanto as oscilações que haviam ocorrido no céu nos últimos dias. Sentindo o peso que o seu filho carregava, ele chegou no garoto, segurou seus ombros e o abraçou, tentando diminuir um pouco o peso que seu filho carregava.

– Oh filho, desculpe por não te dar espaço, diga-me o que houve, creio que os conselheiros conseguiram resolver tudo por enquanto sem mim. – Ele acenou para que os dois seguissem para fora do escritório, mas só necessitou Yann dizer as primeiras palavras, que os dois que já estavam quase à porta, congelaram e retornaram a visão ao “Pastor”.

– Foi o Celebi. Ele disse que eu deveria perguntar ao senhor. Disse que eu havia feito muitas perguntas, mas o senhor seria capaz de responde-las. Pai, quem é esse Celebi, ele é um Pokémon ou algum tipo de ser diferente? – Lágrimas ainda escorriam da face de Yann, mas sua expressão parecia mais aliviada.

– O protetor entrou em contato com você? – Rose perguntou enquanto o rosto de Peter demonstrava interesse e perplexidade, e o “Pastor” mostrava uma face de surpresa. – Senhor – ela falou dirigindo-se ao “Pastor” – se ele apareceu para o garoto, a situação realmente chegou ao extremo que tanto temíamos. Não concorda?

O “Pastor” limpando as lágrimas do rosto de Yann tomou fôlego e falou para seus companheiros.

– Vejo que as coisas realmente saíram do controle, vocês dois, verifiquem se não há ninguém escutando do lado de fora e fiquem de sentinela aí, gostaria de conversar um pouco com meu filho sobre os acontecimentos que devem vir a se desenrolar agora. Charmeleon e Alakazam, solicito a vocês que fiquem com eles, e mantenham a porta intransponível, ok – o “Pastor” tomou um tom mais sério em suas palavras e retornou a sua mesa, segurando a caixa em suas mãos, enquanto os quatro se retiraram, deixando Yann, que agora estava com a expressão de dúvida no rosto, ao ver a seriedade que seu pai havia tomado.

– Yann, sinto que sua vida adulta acaba de iniciar, suas aventuras com o Tristan e o Markus devem ter ajudado a você entender um pouco melhor como tomar decisões de impulso, e também devem ter ajudado a aguentar as consequências de seus atos. – Os olhos de Yann continuavam vacilando sobre que fio de entendimento deveria seguir. Seu pai não parecia mais aquele de sempre, o tratando com candura e amabilidade. Agora ele parecia mais sério, como sempre tratava seus Conselheiros durante as reuniões.

– Você não deve estar entendendo, mas antes de tudo, devo lhe mostrar algo, devo te mostrar o que há nessa caixa e porque você nunca pôde brincar com ela ou a abrir. Você a via sempre no local mais exposto da casa, como um altar, e era exatamente isso que aquele lugar representava, por conter isso lá. – O “Pastor” sentou na quina da mesa, pegou um cordão que havia em seu pescoço e removeu um pingente que estava pendurado. Um pingente esverdeado com folhas de azevinho internas que Yann acreditava que havia sido presente dos seus avós pelo casamento de seus pais. O “Pastor” quebrou o vidro do pingente e pegou o pequeno colar de azevinho que se soltou, colocando na abertura da caixa.

A caixa de velho Carvalho, que tantas vezes foi fonte de curiosidade e de muitas teorias malucas entre seus amigos, mas a teoria que ele mais defendia era que se tratava de uma poção perdida de Pokémons muito antigos, fósseis, que deveriam ter um grande valor para seu pai.

 

A caixa não possuía trinca alguma, parecia que era colada em todas as suas junções, mas o toque do colar de azevinho fez com que o interior do tão desejado “brinquedo” se revelasse. Lá dentro Yann observou uma fita com símbolos que ele não conhecia, e alguns desenhos que lembravam pessoas e Pokémons realizando algum evento que se dirigia ao céu e criava um pequeno ser verde, com duas antenas e grandes olhos azuis, o que não levou mais de um segundo para ele associar ao Celebi.

– Yann, este é o selo de Celebi, um item sagrado para nosso povo, uma vez que este símbolo foi o protetor de todos nós da destruição que acontecia no mundo. Há muitas gerações atrás, nossos antepassados perceberam que o mundo estava para mudar, ser abalado por uma grande destruição e isso envolveria a participação de grandes governos e poderosos Pokémons.

– No começo todos achavam que seriam boas mudanças, como eram divulgadas, mas com o passar do tempo, os grandes Pokémons sagrados, que estavam se relacionado de forma pacífica com os humanos, foram traídos e capturados por estes.

– Eles começaram então a ser usados de formas impiedosas e horrendas, o que começou a causar muitos problemas ambientais, uma vez que estes Pokémons eram os responsáveis por manter o equilíbrio das terras, dos céus, dos mares, das estações, dos elementos, dos desejos humanos e de todo o planeta. – Yann sentou na cadeira e ficou observando a expressão de seu pai, cada vez mais sério, porém aparentando um pouco mais de leveza no olhar. Então esse era o problema que ele tinha, o peso que tanto o sufocava, e já que ele estava conversando, suas pressões foram diminuindo e Yann podia sentir que o fardo já não estava tão repressor nele.

– Começou uma grande batalha entre os Mestres Pokémons que ainda desejavam a estabilidade do mundo, mas muitos governos já possuíam Pokémons mitológicos, únicos e que viviam a centenas, até milhares de anos, e eles estavam sob seu total controle, e estes facilmente começaram a derrotar os desafiadores, o que com o tempo foi se tornando enfadonho para os governos, que decidiram que era mais rápido acabar de uma vez por todas com os Pokémons e Mestres, que simplesmente os expulsar.

– Então os desafiantes começaram a ser massacrados, quando seus Pokémons eram derrotados, eles não tinham tempo de levá-los a qualquer lugar para lhes dar capacidade de recuperá-los e eram exterminados no mesmo momento, com seus treinadores sendo mortos em seguida. – Yann não conseguia entender como isso poderia ter acontecido, por que os humanos teriam traídos os Pokémons e como eles os tinha sob controle, porque os Pokémons lutavam sob o controle dos humanos. Um sentimento de revolto começou a fluir dentro dele.

– A partir desse momento, começou então por todo o planeta a existir a imposição do mais forte e muitas potências ditatoriais começaram a ser criadas, levando a guerras cada vez mais brutais e devastadoras, tanto pela quantidade de pessoas e Pokémons que morriam, como também pelas áreas do meio ambiente que estavam sendo destruídas. – A cada frase que dizia, o Pastor parecia retirar de suas costas toneladas e toneladas de responsabilidades acumuladas com o tempo e os conhecimentos que possuía, trazendo um tom mais jovial ao seu rosto, porém uma linha de preocupação ainda existia.

– Sem qualquer forma de equilíbrio no mundo e sem quem tivesse poder para que se impusesse a estes dominadores, muitos povos começaram a se refugiar em florestas profundas, em montanhas, e nos mais diversos lugares, mas eles também eram encontrados, e se não pudessem dar nada de valor para seus captores, todos eram exterminados e eles passavam para outros povoados.

– Você não acha estranho termos poucas pessoas passando por nossas terras, por nossa vila, sempre sermos tão isolados. – Isso era uma das muitas dúvidas que Yann tinha, mas como nunca ninguém havia perguntado em voz alta, ele também não havia atinado para tal. Seu pai então continuou.

– Isso acontece porque há uma grande barreira, erguida há séculos, pelo poder criado através do desejo dos Pokémons e dos humanos, que não aguentavam ver todo o planeta sendo destruído e então eles se reuniram e a força de seus desejos pôde convocar o grande Celebi. Um Pokémon que é tido como o espírito das florestas, o protetor dos viajantes e o viajante das tempestades. – O “Pastor” então contornou a mesa, deixando a caixa aberta na frente de Yann, sentando-se na sua poltrona e se espojando por ela, como um garoto fazia sempre que se sentava na grande e confortável poltrona de seu pai, e então continuo.

– Após a convocação do Celebi, ele prometeu que protegeria a todos por possuírem o coração e as ações puras, o que faria com que o espaço destinado à preservação fosse criado, protegido de todo o mal externo do mundo de aversão que foi sendo formado do lado de fora da nossa vila. Essa proteção é o céu que observamos, porém, esse céu azulado não é o céu original que o nosso planeta possui. – Yann não conseguia entender o que o pai falava. Será que as variações seriam o natural, e o céu que virá desde criança nada mais era que uma farsa.

– Infelizmente, a ganância humana e a união com Pokémons das trevas causou a total destruição da atmosfera protetora, a responsável por esse efeito azulado do céu.

– O céu atualmente é negro, com flamejantes tempestades causadas pela queima dos gases presentes no ar, o que nos desertos, pode significar a morte, já que todo o lugar arde em chamar. As cidades são rodeadas de grandes cúpulas de vidro, para proteger o pouco oxigênio que resta, possibilitando a respiração, contaminada, de toda a população. Apenas poucos habitantes do planeta respiram o ar puro, como o que encontramos aqui, são aqueles que gastam rios de dinheiro – ao ouvir essa palavra ele não entendeu do que se tratava - e que são hipócritas e cruéis com os que os rodeiam, além de possuir os Pokémons mais poderosos para lutar por eles. – Yann avaliou bem o que foi dito e interrompeu o pai, confuso sobre o que ele havia falado.

– Pai, o que é dinheiro, como você sabe tão bem sobre esse mundo lá fora, como você sabe sobre esses fatos da história, de tanto tempo atrás, o senhor é tão velho assim? – foi a pergunta natural que ele conseguiu desenvolver após escutar todo discurso do pai. Durante o mesmo, ele estava somente absorto em todas as revelações que estavam sendo realizadas e ficou pensando como seu pai conseguiu viver até o momento com tantos segredos para si.

– Esses segredos são transmitidos para os Pastores da Vila Serena e somente nós temos todo esse conhecimento. Quando um pai entrega a seu filho essa caixa, ele dá junto o controle da vila, pois chegou o momento dele tomar as corretas decisões, já que o Celebi o achou digno de tal atividade. Mas ele aparecer para o procedente jamais havia ocorrido, o que ocorre é um sonho do Pastor atual, onde lhe é informado até que momento ele deve ficar no poder e passar então todas as atividades para seu sucessor, como foi passado pelo seu avô para mim e dele pelo pai dele, e pelo pai do pai dele, e assim por diante, por séculos.

– Não preparei todas as coisas que me foram passadas quando me tornei Pastor, então não sei como devo proceder nesse caso, mas sei que poderemos trabalhar em conjunto para manter a vila em controle e descobrir o que está acontecendo com a barreira de Celebi, que não tenho medo de supor, pode ter algo haver com a atitude estranha de alguns Pokémons e os eventos meteorológicos que vêm sendo apresentados aqui na nossa vila. – O “Pastor” começou a retirar alguns documentos de sua gaveta e colocá-los sobre a mesa, para que Yann tivesse a oportunidade de observá-los também. Ele identificou muitos locais que comumente frequentava, mas percebeu que havia muitas passagens secretas nesses lugares, e em alguns, até mesmo grandes salões subterrâneos secretos.

– Você me aceita como seu “Pastor regente”, até eu repassar a você todos os dados, todos os segredos e rotinas do trabalho de Pastor, meu filho? – Wilson agora o olhava com um olhar suplicante e ao mesmo tempo aliviado, por saber que seu trabalho estava terminando, mas não queria que seu filho sofresse com essa transição inesperada que havia sido provocada. Também demonstrava um pouco de tensão, por saber que seu filho agora teria que carregar esse fardo tão pesado.

– Pai, tudo isso é demais para eu controlar, claro que quero trabalhar com você, e há uma coisa que quase me esqueço de mencionar, um rebanho de Tauros debandou hoje, durante o evento climático estranho no céu, no final da tarde e eles demoliram o celeiro dos Silva, eles se salvaram, e pouco tempo depois os Pokémons pareciam que não sabiam o que tinham feito e retornaram para o local de onde eles haviam debandado, eles pareciam muito confusos.

– Entendo, cada vez mais, tenho certeza que isso se trata de algo intercalado com a nossa proteção, parece que ela está perdendo força, temos que fazer algo a respeito disso. Os Pokémons que a mantém erguida devem estar sofrendo algum mal. Alakazam também vem sentindo algumas perturbações, ele me disse que vem tendo pesadelos. – Yann se espantou ao ouvir que Alakazam conversava com seu pai, alguém bateu na porta, sendo convocado por Wilson para entrar na sala.

– Senhor Pastor, me desculpe, eu sei que o senhor não gosta de ser interrompido durante a discussão de assuntos sérios, e sabe que jamais faria isso se não fosse algo grave, mas a Dra. Healling está querendo falar com o senhor, posso deixá-la entrar? – Rose apareceu na porta, muito vermelha, como era costume quando realizava algo que não condizia com seu perfil metódico e correto de executar seu trabalho.

– Não se preocupe Rose, estávamos conversando sobre assuntos profundos, - ele deu um sorriso maroto para ela – mas sei que você jamais nos interromperia por assuntos supérfluos, e avise a todos, a partir desse momento, não há necessidade de me chamarem de Pastor, volto a ser apenas Wilson, meu filho sim, este a partir de agora recebe o título de “Pastor” e é a ele que você responde agora. – Com as palavras lançadas a Rose, seu rosto enrubescido agora também ganhava uma expressão de surpresa e descrença, olhando rapidamente de Wilson para Yann, sem noção de como reagir.

– Então, ... –ainda um pouco envergonhada ela perguntou a Yann – senhor “Pastor”, podemos deixar a Dra. Healling entrar? – Porém o rosto de Yann era o mais espanto de todos, que não achava que o cargo seria passado tão instantaneamente.

Na mente de Yann tornar-se Pastor parecia algo para uma cerimônia suntuosa, com toda a vila, numa festa gigante de dias, mas parando para analisar agora, ele viu que assim foi realmente a melhor forma, ele não saberia onde colocar as mãos quando todos estivessem olhando para ele e esperando discursos lindos e tão inspiradores como o do seu pai. As palavras lançadas de forma direta pareciam o melhor método mesmo para a posse oficial, mesmo que elas tivessem a força de toda uma debandada de Tauros em seus ossos.

– Err... bem, sim, pode deixar ela entrar Sra. Teodor – com um aceno de cabeça Rose saiu e segundos depois a Dra. Healling entrou pela porta da sala do Pastor, sua expressão era sombria e chorosa, Wilson que apresentava um sorriso maroto no canto da boca, rapidamente o perdeu e deu espaço a um rosto mais preocupado, pelas palavras que poderiam vir a ser proferidas, deixando passar a citação que ele não era mais o Pastor e sim seu filho.

– Senhor “Pastor”, infelizmente tenho que lhe trazer más notícias. O pequeno Oddish que o seu Alakazam nos apresentou, infelizmente não resistiu e sucumbiu a doença que o havia afetado. Provavelmente ele estava doente por alguns dias e perdido na floresta, e como o Alakazam só o encontrou hoje, os suspiros dados aqui foram seus últimos. – Ela falava com brilho nos olhos pelas lágrimas que não desciam.

– O Chansey conseguiu isolar colônias presentes nos poros apresentados nas folhas da cabeça do pequenino e identificou como um forte veneno, liberado por microrganismos que nunca observamos dentro da nossa vila. Estamos trabalho para gerar uma cura, mas como conseguimos pouca amostra até agora, não temos previsão de realizar uma boa pesquisa sobre o veneno. E antes que eu esqueça, temos certeza que esse Oddish foi atacado por algum tipo de animal que não conhecemos, pode ser alguma espécie de Pokémon ainda não observada nas nossas terras com presas afiadas mais poderosas que uma Arbok.